MuBE – São Paulo

São Paulo - Brasil / 2011
Mostras, Pesquisa

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Nos últimos anos, a arquitetura contemporânea é chamada a repensar sobre as ferramentas, temas e objetivos para atender à uma transformação radical e por vezes dramática da paisagem metropolitana em escala global. A situação generalizada da crise, além de contestar muitas das estratégias e dos dogmas do século XX, faz-se portadora de desejos e perguntas inéditas, muitas vezes pertubadoras, as quais também a arquitetura deve responder de forma útil e urgente. Na Itália, como na maior parte dos países europeus, uma nova geração de profissionais e de estúdios de arquitetura está buscando, lentamente, fazer pesquisas e oferecer respostas à esta fase histórica incerta e densa, plena de novas ocasiões, desviando progressivamente a atenção para o projeto de arquitetura não como simples produção de formas, mas como instrumento de reflexão nas paisagens artificiais e naturais. O Studio Archea, fundado em Florença em 1988, por Laura Andreini, Marco Casamonti e Giovanni Polazzi, é uma daquelas novas realidades profissionais no campo da arquitetura italiana e internacional, que desenvolve esta linha de pesquisa, tentando continuamente uma difícil, mas não impossível, mediação entre um modo italiano de realizar e o empenho para ser inserido em um mercado cada vez mais globalizado. Entre os primeiro estúdios italianos, da assim chamada nova geração que abriram sedes no exterior, primeiro em Pequim, e depois em Dubai, o Studio Archea foi imediatamente reconhecido como uma estrutura horizontal em que as diversas competências e especializações são combinadas diversamente na produção de projetos em diversas escalas. Entretanto é importante sublinhar que, a partir de 1997 com a fundação da revista Area por Marco Casamonti, a atividade projetual continuou a ser desenvolvida em perfeita integração com a atividade editorial e curadoria no campo da cultura arquitetônica, definindo um círculo virtuoso importante que conecta teoria, pesquisa e projeto. A partir daí, nos primeiros trabalhos construídos, o Studio Archea foi demonstrando uma notável coerência e objetividade, que se tornou um padrão, um molde de projetação, conferindo ao estúdio, o título de uma das realidades emergentes mais interessantes da cena italiana. Da discoteca Stop-Line de Curno (1993-95) passando pela casa de Leffe (1997-99), a restruturação da via Tirreno em Potenza (2000), as barreiras acústicas ao longo da tangencial de Florença (2000-2007), o acampamento Albatros em San Vincenzo (2006-2009), as duas bibliotecas, em Curno (1996-2000) e Nembro (2002-2007), a revitalização da fábrica Perfetti em Lainate (2005-2009) até chegar a nova vinícula Antinori nas proximidades de Florença (2004-2012), podemos reconstruir a presença de uma série de informações que não se traduzem em uma linguagem codificada, mas sim numa abordagem complexa que revela alguns elementos importantes de continuidade. Todas estas obras são colocadas constantemente em tema, devido a relação com os lugares e com o terreno nos quais se localizam, buscando um enraizamento físico que passa sobretudo através da gama de materiais utilizados e das cromias densas e naturais. A base da arquitetura é trabalhada através da utilização forte, as vezes obsessiva, de materiais que definem a mesma identidade do projeto e a vontade de ligar a arquitetura ao solo, enraizando-o de maneira quase arcaica. O ocre denso dos cimentos de Potenza, o bambú embrenhado de Livorno, as terracotas dinâmicas ao longo da auto estrada fiorentina, as cerâmicas vermelhas sombreadas de Nembro, além de ser uma tendência fortemente comtemporânea de contruir diálogos com os materiais da natureza, se transforma também em uma estrada inesperada de como interpretar um certo pensamento italiano do projeto relendo as suas matérias antigas. À tudo isso se combina uma forte atenção ao contexto histórico e ambiental presente, conectando a atividade de Archea à algumas das experiências mais vitais e estimulantes da Arquitetura Italiana dos últimos anos 50 e 60, nos quais o tema dá continuidade aos lugares e sua história, tornando-se assunto de reflexão projetual e poética. Nestes últimos anos a pesquisa do estúdio e as diversas possibilidades na Itália e no mundo, aumentaram a sensibilidade para que os projetos possam suprir às necessidades, dando uma nova identidade aos lugares onde são imaginados. A visão da arquitetura como novo ponto de referência se transforma progressivamente em um outro elemento altamente distintivo do estudo fiorentino, seguindo uma estrada traçada por alguns mestres da arquitetura italiana do final do século XX, que progressivamente deslocaram a atenção da arquitetura como objeto autônomo para a arquitetura como fragmento ativo da paisagem metropolitana. Confrontando-se sempre mais, com contextos anônimos e sem algum caráter definido, à arquitetura de qualidade é exigida uma sensibilidade cada vez mais radical, sendo que cada nova intervenção deva restabelecer o lugar ao qual pertence, devolvendo significado, qualidade estética e espacial para a área. Com a nova torre residencial de Tirana, ou mesmo com a intervenção potentíssima e imprevisível da vinícula Antinori e com o gigantesco complexo para a Cerâmica Li Ling, a arquitetura atinge um outro patamar, arriscado e necessário, visto a gama de temas e a complexidade que devem ser afrontadas. Mas também, estes projetos, indicam as trajetórias possíveis para solucionar os problemas e desafios ao explorar este terreno de forma ambiciosa e de grandeza estrutural. Com a abertura do estúdio na China, pouco tempo faz, o Studio Archea deu um salto significativo, trazendo esta nova realidade italiana para um dos mercados aquecidos no desenvolvimento metropolitano mundial. E nas primeiras respostas, com o pavilhão realizado para a Expo Shanghai, o projeto em curso para o centro cerâmico di Li Ling, demonstram como o estúdio italiano está utilizando esta ocasião como um laboratório de experimentação e investigação, ao invés de somente “um novo mercado”, baseado apenas em uma linguagem de fácil consumo. Creio que esta seja a direção justa para a arquitetura que não quer se prender a esteriótipos superficiais mas que invés disso, observa este mundo em profunda metamorfose como uma ocasião de percepção e experimentação ativa. Se trata de uma inquietante dimensão, necessariamente instável, que acredito será coroada de oportunidades e de desafios, que poderão possibilitar aos estúdios como Archea, oferecer uma contribuição inédita a um mundo que pede uma visão aberta e intrigante para o futuro próximo.

 

Luca Molinari